Um assassinato na pequena cidade de Holcomb, no estado do Kansas, em 1959 rendeu a Truman Capote a obra de sua vida. A investigação tinha como primeiro objetivo mostrar aos leitores da revista The New Yorker a reação dos moradores da cidade frente a um crime tão brutal, que acabou com as vidas de quatro integrantes da família Clutter. O foco da reportagem mudou depois de Capote conhecer os assassinos, Perry Smith e Richard Hickock. Os dois foram condenados a forca, não sem antes fornecer a ele os mínimos detalhes de um crime definitivamente planejado A Sangue Frio.
O livro, definido pelo próprio Capote como um “romance de não-ficção”, conta os detalhes do assassinato de Herb Clutter, sua mulher Bonnie e os dois filhos Nancy e Kenyon. O autor faz um relato detalhado do último dia de vida da típica família americana, ao mesmo tempo em que traça os caminhos que levaram Perry e Dick – apelido de Hickock – a Holcomb no dia 15 de Novembro de 1959. Está tudo ali: a descoberta dos corpos na manhã seguinte, o choque dos vizinhos, a fuga dos assassinos e sua relativa calma depois da brutalidade. Além disso, a dúvida: porque uma família que era admirada por todos os moradores da cidade seria assassinada? Um par de binóculos, um rádio e 40 doláres, só o que foi levado da casa naquela noite, certamente não seria motivo para fazê-lo.
Truman Capote viajou a cidade um mês depois do crime. Entrevistou pessoas próximas aos Clutter, leu documentos oficiais e acompanhou a investigação. Mas foi somente depois de conhecer os criminosos que o jornalista encontrou o rumo de sua obra. Ele foi o único, além dos advogados, a ter permissão para visitar Perry e Dick enquanto estes aguardavam a concretização da sentença, que demorou cinco anos para acontecer. A revista The New Yorker publicou o resultado dessas conversas em quatro edições, que um ano mais tarde se tornariam os quatro capítulos do livro A Sangue Frio. A publicação ficou conhecida como um dos expoentes do new journalism, (no Brasil, jornalismo literário) que além de Capote tem como principais autores Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer.
A Sangue Frio é uma obra de 440 páginas que raramente deixa o leitor entediado. A descrição detalhada de Capote traz a dura realidade do crime ao mesmo tempo em que cria uma angustiante atmosfera que só está presente nas melhores histórias de ficção. O jornalista disse nunca ter usado um gravador ou uma caneta para recolher os dados da investigação, gerando certa desconfiança. Capote seria realmente capaz de memorizar todos os fatos e descrevê-los com tanta precisão? É difícil de acreditar que um humano tenha uma memória tão excelente.
Para os estudantes de jornalismo, A Sangue Frio é leitura indispensável. Capote dá uma lição de como investigar os fatos e conseguir ótimos resultados. Os amantes de uma boa ficção também não ficarão decepcionados: uma história real não poderia ser mais romantizada como essa. E seja com ou sem gravador, Truman Capote conseguiu extrair uma belíssima reportagem de uma nada bela noite na vida da família Clutter.
Beijos,
Aline :)




