A arte da não-entrevista
Gay Talese reúne em um só título textos que resultaram de muitas caminhadas e conversas.
Observar é, sem dúvida, uma das tarefas mais importantes do jornalista. Ser capaz de perceber tudo que acontece ao seu redor e passar para o papel suas impressões são tarefas do cotidiano desse profissional que tem, na maioria das vezes, as palavras como suas aliadas. Gay Talese não foge à regra. Em Fama & Anonimato, o jornalista americano tem compiladas suas melhores produções, ricas em detalhes que aguçam a curiosidade do leitor. Dividida em três grandes partes, a obra com cerca de 500 páginas é quase uma bíblia para os estudantes de jornalismo. Bíblia porque, além da extensão, sintetiza brilhantemente aquilo que todo profissional da área deveria fazer: informar. Mas Talese não o faz de forma burocrática. Com a sua experiência e “arte de sujar os sapatos”, termo usado por Humberto Werneck no pósfácio do livro, o jornalista produziu textos ricos em detalhes sem entediar o leitor. Saber, por exemplo, que os nova-iorquinos da década de 60 piscavam 28 vezes por minuto parece ser uma informação banal, mas inserida no cotidiano da grande metrópole americana, o dado faz todo o sentido.
Gay Talese é considerado um dos criadores do new journalism, apesar de ser enfático ao dizer que seus textos são resultado de práticas do bom e velho jornalismo, aquele no qual o gravador era praticamente inimigo do jornalista. Talese conta no texto final do livro, intitulado “Como não entrevistar Frank Sinatra”, que seus trabalhos foram feitos com muita observação, raras anotações e nenhum tipo de gravação. Apesar de parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje – como fazer um bom perfil sem usar o famoso bloquinho ou métodos mais tecnológicos durante a entrevista? – o resultado é bastante promissor. Afinal, como disse o próprio autor, “mais importantes que o que elas [pessoas entrevistadas] dizem é o que elas pensam”. Ironicamente, talvez o texto mais famoso de Fama & Anonimato seja aquele em que o principal personagem não tem nenhuma conversa direta com Talese. “Frank Sinatra está resfriado” é o primeiro texto da terceira parte do livro, na qual diversos perfis escritos por Talese estão compilados. A entrevista com o cantor e ator estadunidense já estava marcada quando o jornalista recebeu uma ligação cancelando o encontro. Como dito no título, Sinatra estava doente e precisava se poupar. Mas o jornalista não desistiu: foram semanas “cercando” o cantor e entrevistando pessoas de sua equipe, além de comparecer a gravação de um especial para TV, onde ficou a poucos metros de distância de Sinatra. O resultado foi um artigo de 55 páginas que não sentiu falta alguma da conversa inexistente com o cantor.
Além dos perfis – até um escritor de obituários não escapou de Talese – e dos textos sobre Nova Iorque, o livro também possui diversas páginas dedicadas à construção da ponte Verrazano-Narrows, que liga o bairro do Brooklyn, na mesma cidade norte-americana, a Staten Island. Nos textos, Talese transmite ao leitor detalhes do cotidiano deste monumento, ao mesmo tempo em que dá voz aos trabalhadores que arriscaram suas vidas durante a obra.
Apesar de publicados em épocas diferentes e somente mais tarde reunidos em um só título, os textos se conectam de tal forma que parecem uma só obra. A tão sonhada fama em contraste com o anonimato traz vivacidade ao livro e prova que grandes matérias não são somente feitas sobre grandes personalidades. Existem anônimos tão – ou até mais – interessantes que muitos conhecidos, e Gay Talese não faz pouco caso da história de nenhum deles.











