Há 66 anos, o mundo conhecia a primeira bomba atômica, assim como suas terríveis consequências. Já no final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos lançaram a bomba que além de mudar a vida de muitos moradores de Hiroshima, a primeira cidade atacada, marcou a história mundial como um terrível episódio a ser lembrado. Em Hiroshima, John Hersey faz o que ficou conhecida como a melhor reportagem jornalística da história, mostrando para o mundo inteiro quais foram os reais problemas de um acontecimento que poderia ter sido evitado.
Hiroshima foi publicado pela primeira vez em agosto de 1946, na revista norte-americana The New Yorker. O texto ocupou a edição inteira e os exemplares esgotaram em minutos. Quarenta anos depois, Hersey voltou à cidade para reencontrar os personagens e descobrir qual foi o rumo de suas vidas após a tragédia. Com 176 páginas, a edição da Companhia das Letras é dividida em quatro capítulos e um pósfácio feito por Matinas Suzuki Jr.
O jornalista começa a obra com uma descrição daquele 6 de Agosto de 1945 para cada um dos entrevistados. Alguns, por acaso do destino, mudam a rotina de suas vidas exatamente naquele dia, o que ajudou para que sobrevivessem ao ataque. Nos próximos capítulos, Hersey tenta mostrar ao leitor como ficou Hiroshima depois da bomba. A população estava desinformada e com medo, mas o espírito de solidariedade dos japoneses nunca deixou de se manifestar.
Com o início do processo de recuperação, o autor escreve pequenos trechos para cada personagem. Os efeitos colaterais da radiação já começam a aparecer e físicos de todo o mundo tentam explicar o que aconteceu. Aqueles que ainda estão vivos não gostam de ser chamados de sobreviventes, por acharem que é um desrespeito com os mortos. O termo “hibakusha” (pessoas afetadas pela explosão) é o único usado para referirem a si mesmo. No último capítulo, começa a descrição da visita de Hersey aos japoneses 40 anos após o lançamento da bomba. Cada um continuou sua vida de um jeito: seguem em frente tentando esquecer; recomeçam o que foi destruído e buscam a paz. E ainda assim, alguns não resistem às doenças geradas pela radiação.
O livro, considerado como um dos primeiros exemplos do new journalism (ou jornalismo literário) é de uma leitura extremamente leve, mesmo com um tema tão carregado de emoções. Com uma escrita dinâmica, Hersey consegue expor mais do que os números e dados que se encontram nos livros de História e em documentos oficiais. É interessante observar como mesmo em meio ao caos, os japoneses lutaram pela sua sobrevivência, além do grande exemplo de solidariedade com seus conterrâneos.
A vida real e o duro processo de recuperação de cidadãos que apenas saíam para mais um dia de trabalho não podia ser exemplo melhor para mostrar o que uma guerra e sua política de vingança podem fazer com a sociedade. A obra termina com uma demonstração de que nem mesmo as mortes de milhares de inocentes foram o suficiente para apagar a bomba atômica da história: ao longo dos anos, outros países realizavam testes com suas próprias fabricações, como se tivessem se esquecido do que aquela arma fez e ainda poderia fazer. É como disse o próprio John Hersey ao se referir a um dos personagens: “Sua memória, como a do mundo, começava a falhar.”.
Beijos,

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